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Automação

Como montar a primeira automação no trabalho (se isto, então aquilo)

Filtro de e-mail, formulário na planilha e um Zap com duas ações. Sem agente de IA.

A primeira automação no trabalho é uma frase: quando isto acontece, se a condição bater, então faça aquilo. Filtro de Gmail, formulário para planilha, Zapier ou Make. Sem agente de IA.

Artur Boaz9 min de leitura
Dois cartões ligados por uma seta e uma pasta. Capa de automação se isto então aquilo.

Sexta, 17h40. Na oficina ainda estão abertos três e-mails com PDF (Portable Document Format) de fatura, no meio de newsletter e de um orçamento que ninguém pediu. O lead do formulário do site entrou às 14h12 e continua na caixa de entrada, sem linha na planilha e sem aviso no comercial. Alguém ia baixar o anexo, soltar na pasta do Drive e mandar um “chegou fatura”. Alguém ia copiar nome, telefone e pedido para o comercial. Ninguém fez. Não é preguiça. É um trabalho que só existe se uma pessoa lembrar na hora certa.

A primeira automação no trabalho não é um robô que “entende” o e-mail. É uma frase chata e útil: se isto aconteceu, então faça aquilo. Filtro de Gmail, regra do Outlook, Zap no Zapier, cenário no Make. A lógica é a mesma. O que muda é até onde o “então” consegue chegar.

O que é "se isto, então aquilo"

Um filtro, uma regra, um Zap ou um cenário fazem a mesma coisa: esperam um evento, conferem uma condição e disparam uma ação. Não leem o PDF para ver se é mesmo uma Nota Fiscal Eletrônica (NFe). Não decidem se o lead é quente. Olham remetente, assunto, nome do arquivo, campo do formulário, pasta. Se bater, executam. Se não bater, param.

Quando o Gmail ou o Outlook bastam: o “então” mora na mesma caixa. Aplicar rótulo “Faturas”, arquivar, encaminhar para financeiro@, marcar como lido. Na clínica, e-mail de laboratório vai para a pasta Exames. Na loja, mensagem com “pedido #” ganha estrela. Isso já é automação. Não precisa de ferramenta extra.

Quando o Zapier ou o Make entram: o “então” precisa pular de aplicativo. Anexo do Gmail para uma pasta do Google Drive. Linha nova no Google Forms para planilha e e-mail de vendas. Arquivo novo numa pasta de propostas para uma mensagem no Slack. O filtro da caixa de correio não cria linha em planilha nem solta arquivo no Drive.

Por baixo, essas ferramentas falam com cada serviço por uma API (Application Programming Interface), a porta que um programa usa para pedir algo a outro. Você não escreve essa chamada. Escolhe gatilho, filtro e ação na tela. O nome no Zapier é Zap. No Make é cenário. Os dois são “se isto, então aquilo” com um histórico de execuções que você consegue abrir e conferir.

Isso não é um agente de inteligência artificial (IA). O agente tentaria interpretar o texto, escolher o tom, improvisar o próximo passo. A regra não improvisa. Se o fornecedor mandar a fatura com assunto “documento em anexo”, a regra de “assunto contém fatura” não dispara. Isso é limite, não defeito. Para a primeira automação, o limite é o que te salva de um fluxo que mexe em tudo sem você perceber.

Escreva a regra numa frase

Antes da conta no Zapier, escreva a frase no papel (ou num bloco de notas). Quatro pedaços, sempre:

Quando [evento], se [condição], então [ação]. E não [proibido].

O “quando” é o gatilho: chegou e-mail, alguém enviou o formulário, apareceu arquivo na pasta. O “se” aperta o gatilho: remetente, palavra no assunto, campo “tipo” igual a “orçamento”, extensão PDF. O “então” é uma ação, no máximo duas no primeiro fluxo. O “e não” é o que o fluxo está proibido de engolir: boleto, newsletter, e-mail interno, arquivo com “rascunho” no nome.

Oficina: quando chegar e-mail de faturamento@pecas.com.br, se o assunto tiver “NFe” ou “fatura” e existir anexo PDF, então salvar o anexo em Drive/Financeiro/Faturas e avisar financeiro@oficina.com.br. E não processar mensagem cujo assunto tenha “boleto” (isso é outro fluxo, outro dono).

Clínica: quando alguém enviar o formulário “Pedido de contacto”, se o campo assunto for “marcação” e o horário for dentro do expediente, então criar linha na planilha Contactos e mandar e-mail para a recepção. E não copiar número de documento nem convénio para o Slack.

Loja: quando o Google Forms “Quero orçamento” receber resposta, se o campo produto não estiver vazio, então gravar a linha na planilha Leads e enviar e-mail para vendas@ com nome, telefone e produto. E não mandar e-mail para o cliente (ainda não é resposta automática de atendimento).

Escritório pequeno: quando aparecer um PDF novo na pasta Drive Propostas/Prontas, se o nome do arquivo começar por “Proposta-”, então publicar o link no canal #comercial do Slack. E não reagir a arquivos em Propostas/Rascunhos.

Se na frase aparecer “às vezes”, “depende do cliente” ou “a Ana decide”, ainda não é regra. É julgamento. Julgamento fica com gente. A primeira automação só leva o que você escreveria num post-it colado no monitor.

Como montar o primeiro fluxo no Zapier ou no Make

Um fluxo. Conta de trabalho. Gatilho estreito. Filtro. Uma ou duas ações. Teste com um item seu. Nessa ordem.

  1. Entre com a conta da empresa (Google Workspace, Microsoft 365). Se os PDFs de fatura e os leads forem da oficina, da clínica ou da loja, não ligue isso na Gmail pessoal. O fluxo fica preso ao login de quem conectou os aplicativos. Na prática, quem sai da empresa leva o interruptor embora.
  2. Crie um Zap vazio ou um cenário vazio. O nome é a frase da regra, não “Teste 3”. Daqui a três meses você precisa saber o que aquilo faz sem abrir o desenho.
  3. Gatilho o mais estreito que a ferramenta deixar. Em e-mail, não use “qualquer e-mail novo”. Use pesquisa: from:faturamento@pecas.com.br subject:(NFe OR fatura) has:attachment. Em formulário, o gatilho é “nova resposta”, não “qualquer alteração na planilha”. Em pasta, é “arquivo novo nesta pasta”, não “qualquer mudança no Drive”.
  4. Filtro logo a seguir. No Zapier isso é um passo Filter. No Make é um filtro na linha entre módulos. Exemplos que valem ouro: anexo existe, extensão é pdf, campo “produto” não está vazio, nome do arquivo começa por “Proposta-”. Se o filtro falhar, o fluxo para. Isso é sucesso, não erro.
  5. Ação 1: a que tira o trabalho da mesa. Salvar anexo no Drive, criar linha, copiar arquivo. Uma pasta fixa, uma planilha fixa, nomes previsíveis. Não invente pasta do mês “se for dia 1”. No primeiro fluxo, o caminho é único.
  6. Ação 2, se precisar: o aviso. E-mail interno, mensagem no Slack, card no Teams. O aviso diz o que aconteceu e onde está o arquivo ou a linha. Não pede para ninguém “dar uma olhada quando puder” sem o link.
  7. Teste com um item que você controla. E-mail seu para a caixa da empresa, resposta do formulário com nome “Teste Camada”, PDF solto na pasta com “TESTE” no nome. Depois olhe o destino com os olhos: a pasta, a planilha, o canal. O “success” verde na tela do Zapier ou o “success” no histórico do Make não substitui abrir o Drive.
  8. Ligue o fluxo e abra o histórico no dia seguinte e no fim da semana. Conte quantas vezes disparou, quantas o filtro segurou, se algum PDF foi parar no sítio errado. Se disparou 40 vezes com newsletter, o gatilho estava largo. Aperte a pesquisa. Não adicione uma terceira ação para “compensar”.

No Zapier, cada ação que corre conta como tarefa. No Make, conta como operação. O plano gratuito acaba depressa se o gatilho for “todo e-mail”. Por isso o filtro não é enfeite. É o que impede a fatura de custar o mesmo que a newsletter da tinta.

Três exemplos de PME

Oficina: e-mail de fatura para o Drive, com aviso.

A regra: quando chegar e-mail de faturamento@pecas.com.br, se o assunto contiver “NFe” ou “fatura” e houver PDF anexo, então gravar o anexo em Google Drive/Financeiro/Faturas e mandar e-mail para financeiro@oficina.com.br com o nome do arquivo e o link da pasta. E não processar “boleto” nem remetente interno.

O item de teste: da sua conta, às 18h03 de uma terça, um e-mail com assunto “NFe 4521 - TESTE” e um PDF de uma página chamado nfe-teste.pdf. Nada de fatura verdadeira nesse teste.

O que a ferramenta devolveu: o Zapier marcou a execução como bem-sucedida em dois passos (salvar arquivo, enviar e-mail). No Drive, nfe-teste.pdf apareceu na pasta Faturas. O aviso chegou 35 segundos depois, com o nome do arquivo no assunto. Um segundo teste com assunto “Newsletter março” não passou no filtro. O histórico mostrou “filtered”, sem arquivo novo.

Loja: formulário para planilha e e-mail de vendas.

A regra: quando o Google Forms “Quero orçamento” receber uma resposta, se o campo produto não estiver vazio, então acrescentar uma linha na planilha Leads (data, nome, telefone, produto, bairro) e enviar e-mail para vendas@loja.com.br com esses campos no corpo. E não responder ao cliente e não mandar para o grupo geral do WhatsApp.

O item de teste: no próprio formulário, envio com nome “Maria Teste”, telefone “11 99999-0000”, produto “cortina 2,80 m”, bairro “Centro”. Hora: 10h17.

O que a ferramenta devolveu: o Make rodou o cenário uma vez, status success. A planilha ganhou a linha 48 com exatamente esses valores e a data do dia. O e-mail de vendas chegou com o telefone copiável, sem print, sem “segue lead”. Um envio de teste com produto em branco parou no filtro. Nenhuma linha fantasma.

Na clínica o desenho é o mesmo (formulário de contacto para planilha da recepção), com um “e não” mais duro: não levar para o Slack nome de paciente, convénio ou pedido de exame. A planilha fechada, com gente da recepção no controle de acesso, aguenta. O canal aberto da equipe não.

Escritório pequeno: pasta de propostas para o Slack.

A regra: quando um arquivo novo aparecer em Drive/Propostas/Prontas, se o nome começar por “Proposta-” e a extensão for pdf, então publicar no Slack #comercial o nome do arquivo e o link. E não vigiar a pasta Rascunhos e não comentar em PDF de contrato.

O item de teste: às 16h40, arrastar Proposta-TESTE-Silva.pdf para Prontas e esperar sem mexer no Slack.

O que a ferramenta devolveu: o Zap correu um único passo de mensagem. No #comercial entrou uma linha com o nome do arquivo e o link do Drive. Ninguém precisou escrever “gente, subi a proposta”. Um arquivo chamado Notas-reuniao.pdf na mesma pasta não passou no filtro. O histórico registrou a paragem. Era o comportamento certo.

Três fluxos, três frases, no máximo duas ações cada. Se a oficina quiser ainda “avisar o WhatsApp” e “criar pasta do mês” e “renomear com o CNPJ”, isso já é o segundo mês, não a primeira automação.

Limites

A regra não lê o PDF. Não vê que a fatura veio com assunto “segue, abraço”. Não nota que o lead pediu urgência. Não escolhe o vendedor do dia. Se a condição não está no remetente, no assunto, no nome do arquivo ou num campo do formulário, a automação não tem como acertar. Aí o trabalho continua humano, e tudo bem.

Custo: cada e-mail que passa no gatilho e cada ação que corre entram na conta de tarefas (Zapier) ou operações (Make). Gatilho largo mais planilha da empresa inteira é a forma mais rápida de estourar o plano e de gravar linha duplicada. Filtro apertado sai mais barato e erra menos.

Dado sensível: fatura com valor e CNPJ, lead com telefone, marcação de clínica com nome de paciente. O fluxo passa por servidores da ferramenta. Não conecte Gmail pessoal. Não mande ficha clínica para canal aberto. Não use o primeiro Zap para “encaminhar tudo o que chegar para um Gmail de backup”. Se a informação não podia ir num e-mail para um fornecedor desconhecido, não ponha no Zap.

Dono do fluxo: o Zap ou o cenário vive no login de quem autorizou Gmail, Drive e Slack. Se a Ana montou e saiu, o aviso para de sair na sexta seguinte, sem recado. A conta deve ser da empresa (um utilizador “automacoes@” ou o Google Workspace do sócio que não troca de telemóvel por ano). Documente a frase da regra num documento interno, com a pasta de destino e o e-mail de aviso. Fluxo sem dono é filtro que ninguém ousa desligar.

Gmail e Outlook continuam melhores para o que não sai da caixa: rótulo, arquivo, encaminhamento fixo. Zapier e Make começam quando a ação é outra aplicação. Misturar os dois no mesmo problema (filtro na caixa e Zap em cima de todos os e-mails) é como ter dois contínuos a arquivar a mesma fatura.

O que fazer agora

Esta semana, uma tarefa só. Escolha um dos três: faturas que já caem sempre do mesmo remetente, formulário de orçamento que já existe, ou pasta de propostas que já usam. Escreva a frase com quando, se, então e e não. Se a frase tiver “depende”, corte até caber num post-it.

Depois, meia hora na ferramenta. Se o “então” for só rótulo ou pasta na caixa, faça um filtro no Gmail ou uma regra no Outlook e teste com um e-mail seu. Se o “então” for Drive, planilha ou Slack, monte um Zap ou um cenário com gatilho estreito, um filtro e uma ação. Teste com “TESTE” no assunto ou no nome do arquivo. Abra o destino. Só então ligue.

Na sexta seguinte, às 17h40, o PDF ainda chega. A diferença é que a pasta já o tem, e o comercial já viu o lead sem você lembrar.