A IA inventou esse número. Como conferir no trabalho
O modelo preenche uma lacuna com algo que parece certo. Quatro cenas de trabalho e um hábito de conferência.
Alucinação de IA é o modelo preenchendo uma lacuna com um trecho que parece certo (citação, preço, artigo de lei, pessoa). Um hábito em quatro passos para conferir no trabalho, sem colar o número no contrato antes de ver a fonte.

Você pediu um número. O modelo devolveu 12,4%, um artigo de lei, um preço por unidade, um nome com cargo. A frase soava como relatório. Você quase colou no contrato.
Isso não é o modelo mentindo. É o modelo preenchendo um buraco com algo que parece certo. No trabalho, esse preenchimento tem um nome simples: alucinação. O perigo não é o texto feio. É o texto bonito com um dado que ninguém conferiu.
O que é alucinação, em linguagem comum
Um modelo de linguagem não consulta uma prateleira e tira o número oficial. Ele prevê a próxima palavra (ou o próximo pedaço de palavra) a partir do que já escreveu e do que você pediu. Quando a informação falta, ele não para automaticamente com um aviso de que não sabe. Ele completa o padrão: um percentual com uma casa decimal, um artigo com um número, um autor com um ano. O resultado parece fonte. Não é fonte. É continuidade.
Alucinação, aqui, é isso: o modelo preenche uma lacuna com um trecho que cabe no tom do documento, mesmo que o trecho não exista no mundo. Não é um vírus. Não é o chat ficando maluco. É o jeito de o sistema produzir texto fluente quando o fato não está à mão.
Três confusões comuns. Não é erro de conta: se você cola a planilha e pede a soma, o modelo pode errar a aritmética. Alucinação é inventar a célula que não estava lá. Não é só desatualização: um valor antigo porque o treino parou numa data é atraso. Alucinação é um valor que nunca existiu, com cara de atualizado. Não é opinião: dizer que um texto está longo é juízo. Dizer que a multa é de 2% ao mês, no artigo 52 do Código de Defesa do Consumidor, é um dado. Se o artigo não diz isso, o modelo inventou o encaixe.
A confiança do parágrafo não mede a verdade. O modelo é treinado para soar completo. Um trecho no tom de certeza não é evidência. Evidência é o PDF aberto, a planilha da casa, o Diário da República, o e-mail do fornecedor.
Onde isso aparece no trabalho
Quatro cenas voltam toda semana. ChatGPT, Gemini, Claude, Copilot: a ferramenta é exemplo, não o produto. O gesto é o mesmo.
Citação que não existe. Você pede três estudos, com autor, ano e periódico. Voltam nomes plausíveis e revistas conhecidas. Um dos artigos não está em lugar nenhum. Ou o texto existe e o percentual foi trocado. Colar isso num relatório é assinar um fato que você não viu.
Preço inventado. Você pede o valor médio de um serviço, o custo por hora, o imposto de um município. O modelo devolve 89 euros, 12%, 4.350 reais. A casa decimal transmite precisão. Precisão não é origem. Sem a tabela da prefeitura, o orçamento do fornecedor ou a fatura do mês passado, esse número é cenário, não cotação.
Artigo de lei errado. Você pede o artigo da LGPD sobre consentimento, ou o prazo de garantia no Código Civil. O modelo cita um número. Às vezes o número existe e o conteúdo é de outro artigo. Às vezes o artigo mudou. Às vezes o dispositivo é de outro país. No contrato, isso não é detalhe. É cláusula.
Pessoa que não existe. Você pede um contato no órgão, um autor, um especialista. O modelo monta um nome, um cargo, às vezes um e-mail no padrão da instituição. A página oficial não lista essa pessoa. Ligar ou citar esse nome é fabricar um interlocutor.
O padrão é o mesmo: o formato está certo (autor e ano, preço com centavos, artigo com número, nome e sobrenome). O conteúdo não foi conferido.
Há um quinto caso, mais quieto: o modelo mistura o que você colou com o que parece o restante. Você cola um trecho de ata e pede o prazo. Ele devolve sexta. Ninguém fechou sexta. Isso já aparece no método de resumir reuniões e e-mails sem vazar dados. A regra de lá continua: se não está no texto, escreva que não consta. Aqui a regra é irmã: se você não abriu a fonte, o número não entra no contrato.
A conferência em quatro passos (hoje)
Você não precisa de um time só para checar fato. Precisa de um hábito curto, antes de o número sair da janela do chat.
- Peça a fonte. Não peça um reforço de certeza. Peça o endereço, o documento, o nome do arquivo, o trecho. Informe de onde saiu este 12,4%: cole o título, o autor, a data e o link ou o nome do PDF. Se o modelo recuar, generalizar (diversos estudos apontam) ou inventar um link, trate o número como não conferido. Pedir certeza reforça o tom. Pedir fonte força um objeto no mundo.
- Abra a fonte. Você abre. Não o modelo. Clique no link. Busque o PDF no site da instituição, não num resumo de terceiro. Procure o artigo no texto da lei (o número e o começo do dispositivo). Confirme a pessoa no organograma oficial. Se o link não abrir, se o identificador não resolver, se o PDF for de outro tema, pare. Não aceite uma segunda citação do mesmo chat como substituto. Fonte é o documento original, não a paráfrase.
- Confira unidade e data. Os 12,4% são de quê: margem, desconto, inflação, amostragem. Em que moeda: euro, real, dólar. Por mês ou por ano. A tabela é de 2019 ou de 2026. O artigo foi revogado. O preço é sem imposto. Muita alucinação passa porque o número parece bater e a unidade não. Trocar ao mês por ao ano em multa, juros ou prazo de resposta muda o contrato inteiro. A data da fonte importa tanto quanto o algarismo.
- Não cole o número no contrato, na proposta, na ata oficial ou no e-mail ao cliente até você ter visto o número na fonte. Rascunho no chat pode carregar um espaço reservado. Documento que outra pessoa vai assinar, não. Se a reunião ainda está em transcrição, limpe nomes e valores antes de colar no chat para verificar. Conferir não autoriza vazar.
Os quatro passos cabem em cinco minutos quando a fonte existe. Quando não existe, economizam um retrabalho de semanas. Um atalho inútil: perguntar ao mesmo modelo se aquilo é verdade. Ele tende a defender o próprio parágrafo. Um atalho útil: pedir o trecho literal e ir atrás dele no site da lei, na fatura, na pasta da empresa.
Quando o modelo ainda é útil
Alucinação não anula o uso. Anula o uso como arquivo oficial.
O modelo é útil para montar a lista de perguntas ao jurídico, ao financeiro, ao fornecedor. É útil para rascunhar a estrutura do e-mail, do contrato ou do post, com um espaço no lugar do número (valor, artigo, prazo). É útil para traduzir um jargão que você já conferiu, apontar tipos de fonte (tabela da prefeitura, Diário da República, fatura, cláusula) sem preencher o valor, e reformular um parágrafo seu, desde que o dado já esteja no seu texto.
Deixa de ser útil quando o número vai para um documento com efeito (proposta, cláusula, relatório à direção, texto público com estatística, parecer), quando você não abre a fonte no mesmo dia, quando o pedido é o valor de mercado sem uma base que você já possui, ou quando a pessoa citada precisa existir para um e-mail sair.
Peça formato, não fato. Monte a tabela com as colunas município, alíquota, fonte, data. Deixe a alíquota em branco se não houver fonte que você possa abrir. O vazio visível é mais honesto do que 12,4% elegante. Cole o trecho que você já tem (a cláusula, a fatura, o artigo) e peça para extrair, não para completar. Extração ainda erra. Completar é o terreno da invenção.
Limites: o que este hábito não resolve
Conferir fonte não transforma o chat em base de dados da empresa. Se o número mora na casa, busque na casa.
Conferir fonte não autoriza colar o contrato inteiro no chat pessoal. Nome de cliente, preço em negociação, cláusula de multa, dado de saúde ou de folha: isso não viaja para conta gratuita para ver se o artigo está certo. Use o texto da lei no site oficial, a fatura já emitida, o trecho já limpo. Verificação e vazamento são dois problemas diferentes. Resolva os dois. O passo a passo de limpar ata e e-mail antes de colar está no artigo de resumir reuniões sem vazar dados.
Conferir fonte não elimina erro de leitura. Você pode abrir o PDF certo e ainda assim copiar a linha errada. Unidade e data existem para isso. Uma segunda pessoa no número que entra em contrato não é burocracia. É o mesmo costume de duas assinaturas.
Há tarefas em que o modelo não deveria entrar: inventar decisão de tribunal, preencher planilha de preço a partir do conhecimento geral, criar lista de contatos de um órgão, afirmar que uma norma ainda vale. Aí o caminho é o site oficial, o jurídico da casa, o fornecedor. Modelo com busca na web ainda cita página que não contém o número. Abrir o original continua sendo o trabalho seu.
O que fazer agora
Pegue o último número que o chat te deu esta semana. Preço, percentual, artigo, prazo, nome. Peça a fonte. Abra. Confira unidade e data. Só então decida se esse número pode sair da janela.
Se a fonte não abrir, apague o número do rascunho. Deixe o espaço reservado. Escreva a confirmar na célula. O documento honesto com um buraco perde menos do que o documento liso com um 12,4% que ninguém mediu.
Não peça ao modelo que deixe de alucinar. Peça uma fonte. Abra você. O valor não é a frase fluente. É o número que você viu no papel (ou na tela oficial) antes de ele virar cláusula.
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